Biografia de Paulo Freire

Paulo Reglus Neves Freire nasceu em 1921, na cidade de Recife, capital do estado de Pernambuco, e faleceu em 1997 na cidade de São Paulo. Este pensador brasileiro é reconhecido hoje como o Patrono da Educação Brasileira definido pela Lei Nº 12.612, de 13 de abril de 2012. Sua família foi muito pobre, seu pai era um servidor público, um policial militar de baixa patente e sua mãe dedicava-se ao cuidado da casa, vindo do campo.

Viviam em condições difíceis em razão da crise de 1929, sendo que seus dois irmãos e uma irmã, que se tornou professora primária, deixariam os estudos muito cedo para dedicarem-se ao trabalho. Estudou em escola pública, e teve a vida marcada pela importância dada por sua mãe à Educação e à Escola. Foi ela mesma que o alfabetizou, numa forma ou de uma maneira que Paulo Freire relembrava com emoção, à sombra de uma mangueira, com gravetos colocados no chão como se representassem pequenas letras na areia branca do Nordeste. Paulo Freire contava de maneira amorosa este episódio nos seus livros que hoje são conhecidos no mundo inteiro.

 

Estudou Direito na Universidade do Recife, mas nunca exerceu efetivamente esta profissão. Trabalhou como professor de língua portuguesa em escolas primárias e secundárias da época, o que lhe acarretaria um conhecimento criterioso das práticas escolares, que ele definia na expressão: “é preciso conhecer o chão da escola”. Sua primeira esposa – Elza Freire – era pedagoga e foi a partir da relação afetiva com ela que ele acentuou seu interesse pelo processo educativo. Entre os anos 1940 e 1960 o Brasil tinha um tema central em todos os debates nacionais - a erradicação do analfabetismo - e a sociedade brasileira assumia a consciência da necessidade da consequente superação dos impedimentos de natureza histórica, para alcançar o esperado desenvolvimento nacional.

 

Paulo Freire, como todos os jovens da sua época, engajar-se-ia na busca de valorizar a cultura popular e, ao mesmo tempo, buscar encontrar uma forma de integrar a educação dos adultos analfabetos do seu Estado, do seu país, no mundo das letras e da cultura, de uma maneira transformadora. Em 1959, Paulo Freire candidatar-se-ia a uma função de agente educacional no SESI de Pernambuco, com a função de trabalhar com jovens analfabetos. Sua tese de concurso de ingresso tratava das causas históricas do analfabetismo e da necessidade de mudanças estruturais na compreensão da Educação, para alcançar uma sociedade mais justa e igualitária.

 

Em 1963, participaria de uma experiência de Educação de Jovens e Adultos analfabetos, na cidade de Angicos, no estado do Rio Grande do Norte, e conquistaria um reconhecimento nacional e, um pouco depois, internacional, por registrar a alfabetização de 300 trabalhadores da cana-de-açúcar e da construção civil em 45 dias, constituindo a base do que viria a ser denominado como Método Paulo Freire de Alfabetização de Adultos, rendendo-lhe justas e pródigas homenagens no mundo todo.

Paulo Freire haveria de criar muito mais do que um método diferenciado de Educação de Jovens e Adultos, foi sim autor de uma nova filosofia da educação ou pedagogia, composta por mudanças estruturais de fundo, de natureza teórica, e por coerentes mudanças metodológicas, nas quais o domínio das letras e das narrativas escritas devem ser uma premissa para ler o mundo. Para ele, ler o mundo antes de ler as palavras significa compreender a alfabetização como processo de aquisição da condição humana plena, como ser que aprende, na dimensão de autoria, de ser sujeito e protagonista de sua alfabetização dialógica, isto é, constituir seus conhecimentos e saberes a partir do diálogo com o professor e com o mundo que o circunda.

 

Sua concepção de alfabetização de adultos parte das metodologias coladas às práticas populares, muito vinculadas às práticas pastorais de educação da Igreja Católica no Nordeste, naquela conjuntura. Paulo Freire concebia a Educação como uma prática de transformar a cultura e a realidade social. Sua personalidade afável e amorosa o representa sempre um educador que aglutina as pessoas ao seu redor. Paulo Freire questiona uma educação unilateral, uma educação tradicional, na famosa crítica que faz, exemplarmente, denunciando a distância dos conteúdos escolares da vida real das pessoas.

 

Com o golpe militar de 1964, Paulo Freire foi preso e exilado, obrigado a sair do Brasil, como tantos outros educadores e pesquisadores, e deslocou-se para a Bolívia, depois para o Chile e de lá para Genebra na Suíça, onde permaneceria por muitos anos como professor e consultor da UNESCO. Da Suíça dirigiu-se aos Estados Unidos, sendo recebido como professor em Harvard e em Cambridge. Nesta fase de sua vida, no ano de 1968, escreveria a sua obra clássica Pedagogia do Oprimido, editado nos Estados Unidos e hoje considerado o livro mais divulgado, traduzido ou conhecido, de um intelectual brasileiro.

 

É o terceiro educador mais citado no mundo, nas ciências humanas e sociais e recebeu 41 títulos de Doutor Honoris Causa, pelas universidades do mundo todo. A partir da exposição de sua tese, a pedagogia do oprimido passa a ser a representação de uma nova compreensão de educação, a educação como processo de leitura do mundo, como humanização, a educação como processo de formação ética e política, a educação como acolhimento, como produção de sentido para a existência das pessoas.

 

Paulo Freire atuou ainda na Alfabetização em Guiné-Bissau, na África, depois em Moçambique, trabalhou na Unesco e em inúmeras universidades. Nos anos 1980, retornaria ao Brasil sendo acolhido como professor na Universidade Estadual de Campinas, universidade na qual atuaria por 10 anos. Já reconhecido como um dos mais destacados pensadores contemporâneos, Paulo Freire viajaria pelo mundo todo promovendo sempre a questão da Educação e apontando sua potencialidade para transformar o mundo e superar as desigualdades sociais. Ampliou sua visão de educação, buscando trabalhar a autonomia dos docentes no clássico livro Pedagogia da Autonomia, e inseriu- se pela defesa de uma educação humanizadora na educação infantil e no ensino fundamental.

 

Por dois anos foi Secretário Municipal de Educação em São Paulo, capital, e continuou seu trabalho pelo mundo, em constantes eventos internacionais, vindo a falecer em 1997, deixando um legado de mais de 20 livros e milhares de textos e de trabalhos reflexivos derivados de seu pensamento original e de sua atuação coerente.